Guardando o Pacto e a Vida Antitética
Prof. Herman C. Hanko
Tradução: Mateus Mota
Escritura: II Coríntios 6:14-7:1; Tiago 4:1-4; e Deuteronômio
33:26-29
Considere especialmente que em todas essas passagens
bíblicas a antítese está posta em relevo; e que em todo momento ela
está associada à doutrina do pacto.
Durante o início dessa semana, uma das inscritas
nessa conferência, que aparentemente leu o programa e viu o tópico
dessa palestra, chamou minha atenção ao fato de que a palavra "antitética"
era bastante peculiar. Ela me disse: "A última parte dessa palavra
não vem do vocábulo usado para Deus? E a primeira parte não significa
‘contra’? Portanto, o termo ‘antitética’ não significa que a
vida do cristão é uma vida contra Deus? Por que o senhor escolheu um
assunto como esse?" Essa observação me trouxe memórias de muito,
muito tempo atrás—acho que provavelmente no fim dos anos 40 ou
início dos anos 50—quando, em uma convenção para jovens, o Rev.
Herman Hoeksema disse na palestra de abertura qual seria o tema da
convenção naquele ano: A Antítese. Ele disse: "Não devemos
interpretar a palavra antítese no tema da convenção no sentido
literal da palavra, porque ela significa ‘contra Deus’. ‘Antítese’
é um termo errado", ele disse. Isso ficou vívido em minha mente,
porque um termo errado para descrever uma parte tão importante do
chamado cristão é algo desastroso.
Devo fazer uma objeção, contudo, a tais críticas
do termo. É meu entendimento que a palavra antítese vem de uma palavra
grega que significa "posicionar contra," e que o fim da
palavra não vem da raiz da palavra usada para Deus, mas de um verbo que
significa "colocar" ou "posicionar."
A idéia, portanto, de antítese, como o termo em si
mesmo implica, é que a vida cristã, enquanto o cristão caminha por
ela como membro do pacto de Deus, é posicionada contra a vida do mundo
no meio do qual ele vive.
O assunto é tão vasto que terei que passar por
algumas coisas bem rapidamente.
Deve ficar bem claro, logo no início, que é Deus
quem cria a antítese. Ele a criou bem no início da história, após a
queda. Quando Deus encontrou Adão e Eva no paraíso e disse a Satanás:
"Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o
seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o
calcanhar" (Gênesis 3:15)—esse foi o anúncio da antítese.
Inimizade foi criada por Deus entre o diabo e sua descendência e o
descendente da mulher. Ele não estabelece essa inimizade entre o
descendente da mulher e a descendência da serpente simplesmente
colocando nos corações de um e do outro um ódio recíproco; Deus a
cria executando a obra da salvação no coração de seu povo. Essa obra
da salvação nos corações e na vida de seu povo é sua maravilhosa
maneira de criar tal inimizade, porque torna o povo de Deus
representante do reino de Deus e do pacto em um mundo que é hostil a
Deus.
Em segundo lugar, a antítese está enraizada e não
pode ser entendida à parte do decreto da soberana predestinação. Tem
sua raiz na eleição e reprovação. O descendente da mulher é Cristo,
e nele todos os eleitos. A descendência da serpente constitui os
réprobos. Por trás da antítese está o decreto soberano de Deus, que
ele executa na história.
Em terceiro lugar, essa antítese é fundamental e
essencialmente realizada na cruz. Você pode imaginar a cruz, desse
ponto de vista, como posta por Deus no centro da correnteza da história.
Conforme ela é posta dessa forma, o todo da raça humana flui pelo
Calvário e é dividido em dois grupos: os eleitos e os réprobos, que
estão em inimizade um contra o outro, e cuja inimizade é criada por e
expressada fundamentalmente pela obra perfeita de nosso Salvador no
Calvário. Nosso Senhor anunciou antes de sua morte que, além de morrer
por seu povo, com a cruz também viria o julgamento do mundo: o
príncipe desse mundo seria lançado fora (João 12:31).
Finalmente, essa antítese é executada pelo Senhor
exaltado. Não posso enfatizar isso o suficiente! Nas mãos do Senhor,
nas mãos do Senhor exaltado, é dado controle sobre o universo—ou,
colocando de forma diferente, é dada a execução completa de todo o
conselho de Deus. Este dá a seu Filho a autoridade e o poder de
executar seu conselho. Ele governa sobre todos. Ele não apenas governa
soberanamente sobre os eleitos; ele governa soberanamente sobre todos.
Nada acontece, não apenas nessa terra, mas no inferno e no céu, à
parte do governo soberano de Cristo. Tal governo é um de graça, graça
irresistível, conforme ele estabelece seu trono no coração de seu
povo. E tal governo é um de poder soberano em relação aos réprobos
conforme ele os faz servir ao propósito da salvação de sua igreja.
Por que Deus ri nos céus à medida que os pagãos se enfurecem e os
povos imaginam coisas vãs? Ele colocou seu Filho no santo monte de
Sião! O ímpio não pode fazer nada senão servir ao propósito de Deus
(Salmo 2).
Esse governo duplo de Cristo é a razão soberana por
que existe antítese no meio do mundo. Coloque em sua mente, portanto,
que essas grandes verdades das Escrituras se colocam como base e
fundamento da antítese.
A história de como essa antítese é realizada é
uma das mais empolgantes, uma das mais impressionantes e dramáticas que
pode ser contada. É, na verdade, a única em toda a história que vale
a pena ser contada. Quando a história finalmente for reescrita no
grande Dia do Julgamento, e Deus escrevê-la como deveria ser escrita,
mas nunca foi nesse mundo, e quando Deus apontar como em tudo da
história ele realizou seu eterno propósito, então aquele livro de
história será o único que valerá a pena ler. Ele irá preencher as
almas dos que o lerem com glória e doxologias de louvor ao Deus que
trabalha maravilhosamente.
A história começa no paraíso, o primeiro. Começa
lá, onde Adão foi criado à imagem de Deus, como amigo-servo do pacto
de Deus, e recebeu domínio sobre toda a criação terrena de Deus. Ao
dar a Adão o domínio sobre toda criação terrena, Deus lhe deu a
responsabilidade de guardar o jardim. Isto é, deu a incumbência de
trabalhar na criação de Deus como seu representante no mundo—a fim
de usar o mundo de Deus para o louvor e glória de seu nome.
Enquanto essas coisas estavam acontecendo aqui na
terra, eventos dramáticos estavam acontecendo no céu. Lá Satanás
conspirou contra Deus a fim de tentar de maneira desesperada
desapropriá-lo de seu trono. Ele fracassou, mesmo tendo uma multidão
de anjos ao seu lado que concordaram com seu propósito. O resultado foi
que ele foi expulso do céu, embora sua expulsão final ainda não tenha
acontecido até a ascensão do Senhor Jesus Cristo (Apocalipse 12:9).
Por causa de seu fracasso no céu, ele decidiu em lugar disso fazer
dessa presente criação terrena sua possessão, roubá-la de Deus,
estabelecer-se no trono dessa criação terrena, e fazer dela sua
possessão tão completa que toda ela serviria a seus propósitos,
que eram abomináveis, diabólicos, opostos a Deus, nascidos de seu
ódio contra Deus, a sua glória e o seu nome.
Mas Satanás não tinha tal acesso a esse mundo
terreno, senão por meio de Adão. Então ele conspirou para tentá-lo,
por meio de Eva, sua esposa, para ganhá-lo como seu aliado, pois era
ele o cabeça da criação. Se Adão concordasse em cooperar com
Satanás contra Deus, Adão seria o representante de Satanás no mundo e
seria de tal forma manipulado que por seu intermédio Satanás poderia
completar seu propósito aqui em baixo. Ele foi bem sucedido. Triste
dizer, ele se saiu bem.
Porque Adão era o cabeça da criação, a sua queda
significou que a maldição que lhe sobreveio também alcançou a
criação de Deus. Essa era uma conseqüência necessária. Não poderia
ser de outra forma. Adão era responsável pela criação. Agora,
permanecendo responsável por ela, Adão passou a ser o representante de
Satanás e seus propósitos na criação.
Quero lembrá-lo, embora brevemente, que a queda não
foi, do ponto de vista de Deus, um erro. Deus não se assentou no céu e
assistiu aos dramáticos eventos que estavam acontecendo ao pé da
árvore do conhecimento do bem e do mal, esperando contra a esperança
que Adão pudesse se manter em face da severidade da tentação. E
quando Adão caiu, Deus não segurou com força sua mão em desespero, e
chorou em razão da destruição de seu propósito original em criar o
céu e a terra, de tal forma que, consultando-se novamente, decidiu que,
devido à apostasia de Adão, seria forçado a adotar outro plano para
alcançar a glória de seu nome.
Tal concepção da queda de Adão nunca pode fazer
justiça ao propósito glorioso, soberano e eterno de Deus. Devemos
partir do princípio que Deus é Deus que faz a sua boa vontade e cumpre
o seu propósito infalivelmente (Efésios 1:11). Seu propósito, seu
eterno conselho, era glorificar seu próprio nome, não por meio do
primeiro Adão, mas por meio do segundo Adão—Cristo, do qual o
primeiro Adão, segundo Paulo, era apenas um modelo (Romanos 5:12-14). A
fim de realizar tal propósito, Deus, sem macular sua infinita santidade
de maneira alguma, sem de alguma forma se tornar o autor do pecado de
Adão, contudo controlou soberanamente os eventos de tal forma que mesmo
a queda serviu à realização de seu propósito eterno. Isto é o que
Deus anunciou a Adão nas palavras do evangelho. Ele imediatamente
trouxe o evangelho, o evangelho de Cristo, àqueles pobres santos. O
Rev. Hoeksema, tanto em sala de aula como em suas pregações, tinha o
costume de dizer isso de uma forma inesquecível: "Quando Adão
caiu em pecado, ele caiu nos braços de Cristo." Deus trouxe o
evangelho: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua
descendência e o seu descendente."
O resultado disso foi que Deus, na realização de
seu propósito em Cristo, plantou a cruz no Calvário, por meio do qual
poder a inimizade poderia ser criada. Na antiga dispensação a obra de
Deus se projetou à frente, antecipando a vinda de Cristo e a obra que
este iria realizar. Os santos da antiga dispensação entenderam—e
viveram na esperança da vinda de Cristo. Satanás, igualmente, também
sabia disso. Apocalipse 12 nos conta que Satanás imediatamente viu a
ameaça a seu plano quando Deus anunciou o evangelho a Adão e Eva. Toda
a antiga dispensação, portanto, tem essa linha mestra sendo
desenvolvida: a tentativa desesperada de Satanás de evitar que o
descendente da mulher nascesse. Ele ficou de boca aberta, como dragão,
diante da mulher, em um esforço para devorar seu Filho (Apocalipse
12:1-4).
Foi apenas por uma maravilha da graça, por toda a
antiga dispensação, que o descendente da mulher foi preservado. Pense
na ímpia Atalia que, a propósito, nasceu de ímpia união, repúdio da
antítese, entre Judá e Israel, devido, tristemente, à estupidez de
Jeosafá, apesar dele ser um filho de Deus. Atalia matou toda a
descendência real (com exceção de Joás). Pense em Hamã e sua
conspiração para matar todos os judeus. Pense na repetida apostasia em
Israel e em Judá que finalmente levou a nação à escravidão. Tudo é
a história de Satanás tentando destruir o descendente da mulher. O
Salmo 137 é emocionante: Às margens dos rios de Babilônia, nós nos
assentávamos e chorávamos; e quando eles nos pediam canções,
pendurávamos nossas harpas nos salgueiros – como, porém, haveríamos
de entoar o canto do SENHOR em terra estranha? Acaso não falam de
Cristo todas as canções de Sião? Como podemos cantar de Cristo na
Babilônia? É impossível que Cristo nasça aí. Mas penduraremos as
nossas harpas nos salgueiros para que ainda as usemos novamente.
Lembrar-nos-emos, porque o evangelho de Deus brilha como inextinguível
luz nas horas mais negras da história. E o poder do evangelho frustra
todas as tentativas de Satanás de realizar seu propósito. Haveremos de
retornar a Sião.
Deus toma para si, de acordo com o seu decreto eterno
da eleição, um povo pactual, um povo que tomou das garras de Satanás,
resgatando-o de seu poder e estabelecendo-o no meio desse mundo como
sendo o seu povo do pacto. Porque eles são o seu povo do pacto, faz
deles seus amigos e se torna um amigo para eles – amigo que lhes fala
em termos os mais doces possíveis: "Eu o tomei de tal forma à
minha comunhão que lhe darei a conhecer, meu povo, todos os propósitos
de minha vontade que propus fazer até ao fim do mundo, quando todo o
meu propósito se realizar."
O Salmo 25 fala do pacto de Deus em termos de uma
amizade entre Deus e o seu povo, que é tão íntima que Deus lhes fala
seus segredos: "A intimidade de SENHOR é para os que o temem, aos
quais ele dará a conhecer a sua aliança" (verso 14). Ele nos
permite adentrar em seus segredos. Ele sussurra, por assim dizer, em
nossos ouvidos de maneira que ninguém mais possa ouvir: "Vou lhes
contar tudo o que tenho proposto porque faço todas as coisas por vocês.
Farei tudo isso por meus eleitos—farei tudo isso na história do mundo."
Mas ele conta os seus segredos ao seu povo do pacto,
a fim de que possam representar a sua causa e a causa do seu pacto no
mundo. Essa obra de Deus coloca o propósito de Satanás e o propósito
de Deus, na vida de seu povo, em desacordo. O intento de Satanás é
banir Deus de seu mundo, da maneira que for. Ele usará como seus
aliados e ferramentas o todo do mundo ímpio. Ele usará a criação e
seus poderes.
Mas há esse pequeno, quase insignificante,
freqüentemente assustado grupo de santos a quem Deus confia o segredo
de toda a história e os segredos do universo, incluindo até mesmo o
céu. Ele lhes diz: "Agora, nesse mundo, vocês representam minha
causa. E vocês fazem isso dizendo tão alto quanto puderem, para que
todos ouçam, e por toda a sua vida: "Este mundo é de Deus! Não
é de Satanás. Não lhes pertence. Deus reivindica-o como seu. Ele não
abrirá mão daquilo que criou. É seu! E ele cumprirá o seu propósito
nele, também, quando Cristo voltar novamente para redimir todas as
coisas, para glorificá-las, e para dá-las aos seus eleitos como sua
herança eterna". Esse testemunho dos eleitos é a antítese.
Há especialmente duas figuras que as Escrituras usam
para definir essa antítese: há mais, mas existem duas figuras em
relação às quais quero brevemente chamar a sua atenção.
A primeira é a figura de uma batalha. O povo do
pacto de Deus é chamado a uma batalha. Ele é alistado no exército de
Deus. Eles não são voluntários de Cristo, como diz aquele miserável
hino arminiano. Ele é alistado por meio de um ato de graça
irresistível. Ainda assim, não são alistados contra a sua própria
vontade, nem tampouco lutam contra a sua vontade. Deus, em sua obra
graciosa pela qual faz deles soldados nos exércitos de Cristo, que
representam a causa de Deus e de Cristo por meio da batalha, faz deles
soldados alegres e dispostos. É algo maravilhoso, povo de Deus, lutar a
batalha da fé. É algo maravilhoso porque os soldados da cruz estão a
lutar pela única coisa pela qual vale a pena lutar. Lutar por qualquer
outra coisa é lutar por algo sem valor, condenado à derrota. Mas lutar
pela causa de Deus é lutar pela glória de seu nome e pela realização
de seu eterno propósito. É glorioso além de qualquer comparação,
porque o soldado cristão luta com a consciência de que a vitória é
sempre dele. Ele está unido, pela fé, a Cristo, seu Senhor exaltado, o
qual é soberano sobre todos. Cristo não é apenas o capitão de sua
salvação, mas também está no campo do inimigo direcionando as
operações, controlando os movimentos das tropas, tudo pelo bem de seus
soldados. Nosso capitão está em controle absoluto de todas as forças
do exército do inimigo. Como podemos evitar a vitória?
Agora apenas algumas palavras acerca da batalha. Temo,
às vezes, que o povo de Deus se esquece que a vida aqui neste mundo
presente é de fato uma batalha. Eles gostam de pensar sobre isso como
que se pudesse tratar de um playground – estamos no mundo para
aproveitar; estamos no mundo para conseguir tudo o que podemos conseguir
da vida; entregamo-nos aos prazeres dessa criação ao extremo. É um playground,
pensamos. Não, não é. É um campo de batalha. É sempre um campo de
batalha. E o povo do pacto de Deus não pode se esquecer disso, porque
se perderem essa visão da vida, irão falhar em representar a causa de
Deus.
Em segundo lugar, essa batalha é violenta. É mais
violenta do que qualquer outra já travada na história do mundo. Que
importa a Deus a Segunda Guerra Mundial, quando comparada à batalha das
eras? Que importa a Deus o Iraque, visto ser um pequeno item em seu
conselho e plano? A batalha das eras—essa é a mais violenta batalha
que jamais foi travada ou será travada até o fim. E a ferocidade da
batalha é mais experimentada no campo de batalha de nossa própria
carne, pois nossa carne é um aliado ávido de Satanás.
Em terceiro lugar, de todos os pontos de vista
humanos possíveis, a batalha não traz esperança. A igreja é um bando
de Gideão. Isaías, no capítulo 1 de sua profecia, olha para a igreja
no tempo de Judá (não tão antes do tempo do cativeiro), e numa voz
lastimosa descreve a igreja como uma cabana no pepinal, uma cidade
sitiada, um remanescente bem pequeno. De todos os pontos de vista
humanos, todas as probabilidades estão contra a igreja. Ela não tem
força; ela não tem número; ela não tem poder. Ela não tem nada a
seu favor. Ela é o seu pior inimigo. Não há razão por que qualquer
um que observe a batalha diga: "Ela tem chance de vencer." E
às vezes o povo de Deus, sentindo o aguilhão de sua pequenez, começa
a se sentir desencorajado e medroso—especialmente quando o inimigo é
descoberto em seu campo, quando ele deixa a igreja em ruínas e faz com
que aqueles que supostamente deveriam ser ministros do evangelho, se
transformem em ministros da propaganda do inimigo.
Quando a poderosa mão do mundo alcança o povo de
Deus para arrancar seus filhos do seu exército e despedaça-os contra
as pedras da falsa doutrina ou perseguição, o povo de Deus suspira com
grande suspiro: "Estamos com medo. O inimigo alcançou a vitória.
Ele prevalecerá."
Mas se você é daqueles que pertencem ao pacto de
Deus e que representam tal pacto perante o mundo, você irá lutar. E
lutará na certeza de que a vitória é sua. Quão gloriosa promessa
Deus nos dá. A vitória não vem por marcharmos de batalha em batalha
pela causa do evangelho e finalmente vencermos o mundo, de tal forma que
o campo de batalha desse mundo se extinga com a ruína desse presente
tempo, e a fé reformada triunfe aqui no meio do mundo numa era de ouro,
quando o reino de Cristo estiver na terra. Isso não é triunfo; não é
vitória. Mas o filho de Deus olha para a vitória na realização
completa do propósito de Deus no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Sua
aparente derrota é verdadeiramente a sua vitória, assim como na cruz
onde a aparente derrota de Cristo fora a própria vitória sobre todos
os poderes das trevas.
Em quarto lugar, se você ler aquela poderosa
metáfora de Paulo em Efésios 6:10-17, onde ele descreve o guerreiro
cristão e urge o povo de Deus: "fiquem firmes", você irá
notar, se ler cuidadosamente, que as várias partes da armadura, tanto
as partes defensivas como ofensivas sem exceção, de uma forma ou de
outra, se referem à Palavra de Deus. Nós não lutamos a batalha com
balas. Não lutamos a batalha, como Francis Schaeffer sugere em seu Christian
Manifesto (Manifesto Cristão), correndo para as
montanhas, organizando guerrilhas e travando guerras contra o governo
civil numa tentativa de derrubá-lo e estabelecer o Cristianismo como a
lei da terra. Não lutamos dessa maneira. Lutamos com a Palavra de Deus.
Essa é a nossa arma. A única arma que possuímos. Mas ela é
suficiente, pois Deus se agrada de, por meio da loucura da pregação,
ajuntar, defender e preservar a sua igreja e cada membro dentro dela.
Apenas a Palavra. Use-a como sua arma!
Paulo quer dizer que o guerreiro cristão em meio ao
campo de batalha, com o capacete da salvação, a espada do espírito, a
couraça da justiça, com os pés calçados com a preparação do
evangelho da paz, e com o escudo da fé, permanecerá firme. Ele não
pode ser derrotado. Ele pode, ao final, estar extremamente esgotado da
batalha. Sua espada pode estar quebrada e seu capacete todo torto;
sangue pode jorrar de sua cabeça e das feridas de seu corpo; mas quando
a batalha terminar, e ele estiver pronto para trocar a sua armadura por
uma coroa de justiça e os louros da vitória, você o encontrará no
meio do campo de batalha representando a causa de Deus e de sua verdade.
Estar inserido dentro do pacto de Deus é lutar.
Você é chamado à batalha. É chamado a lutar contra tudo o que milita
contra a verdade de Deus, e contra um mal que é contrário à santidade
de Deus. Isso é a antítese.
A segunda figura usada pela Escritura a fim de
definir a antítese (e é sobre ela que desejo me concentrar até ao fim
desse capítulo) é o nome que a Bíblia dá ao povo de Deus que vive a
vida antitética no mundo: os nomes peregrinos e estrangeiros. Pedro
endereça a sua primeira carta a peregrinos e estrangeiros.
A primeira carta de Pedro consiste em sua totalidade
de instruções sobre como o filho de Deus deve viver a vida de um
peregrino e estrangeiro. Gostaria de sugerir que, em suas devoções na
semana que vem, vocês leiam a primeira epístola de Pedro. Leia-a pela
primeira vez do princípio ao fim, não importa a distinção entre os
capítulos (que são adições posteriores), apenas leia-a. E leia com
isso em sua mente: "Sou um estrangeiro aqui assim como meus pais o
foram. Deus me concede esse manual pelo qual devo viver como um
estrangeiro no mundo. Eu o lerei a fim de aprender de meu Deus o que
significa ser um peregrino e um estrangeiro." Então, quando você
a tiver lido do princípio ao fim, medite sobre seu conteúdo e aprenda
o que significa viver a vida de antítese.
Havia essa figura do peregrino na antiga
dispensação. Está em Hebreus 11:13-16. Abraão, Isaque, e Jacó, que
foram chamados da terra de Ur dos caldeus para peregrinar pela terra de
Canaã, quando esta era apropriada por outros; quando não possuíam nem
mesmo o espaço de um pé; eram verdadeiramente estrangeiros em uma
terra estrangeira. Essa passagem nos conta de maneira muito bela o que
Deus deseja que tomemos em nossos corações, ao resumir a vida dos
patriarcas; "Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as
promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que
eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra." Porque, os que isto
dizem, continua o autor do livro de Hebreus (como os patriarcas disseram
ao confessar que eram peregrinos e estrangeiros na terra), se tivessem o
desejo de voltar para a terra de sua origem (Ur dos Caldeus), teriam
encontrado oportunidade de fazê-lo. Ser estrangeiro não era agradável.
Estar em guarda contra os inimigos que os rodeavam era viver uma vida de
constante perigo.
Além disso, a terra prometida era um deserto. Deus
havia dito: "Eu lhe darei essa terra por promessa". Abraão
deve ter olhado ao seu redor e quase dito: "Quem nesse mundo iria
querer essa terra?" Duas vezes ele teve que se ausentar do país
por causa da fome. Isaque teve de sair por causa da fome. Jacó teve de
sair por causa da fome. Uma terra destruída pela fome. Um lugar deserto.
Deus disse: "Essa é a terra que Eu lhe darei". Mas por uma
obra maravilhosa da graça—e você a pode explicar apenas como um
milagre maravilhoso entre o tempo que os patriarcas morreram e aquele em
que Deus trouxe Israel para a terra de Canaã—ela se tornou uma terra
que manava leite e mel. Pense você, um cacho de uva era tão pesado que
era necessário dois homens para carregá-lo.
Mas Canaã não era a terra que eles estavam a
procurar. Eles buscavam uma pátria melhor, isto é, uma pátria
celestial. Eles se contentaram em viver naquela terra estranha como
estrangeiros e peregrinos porque entendiam que ela não era a casa deles
em verdade. Deus prometeu para eles e para a descendência deles aquela
terra como figura de um país melhor. Então eles olhavam para uma
pátria melhor, isto é, uma pátria celestial: "Por isso, Deus
não se envergonha de ser chamado o seu Deus" (Hebreus 11:16).
Esta última linha—talvez não tenha nada a ver com
a minha palestra, mas devo ressaltá-la por um momento. Pense! Você
pode pensar em algo mais abençoado do que Deus dizer sobre mim e sobre
você "Eu não me envergonho de ser chamado o seu Deus. Eu quero
que todo o mundo saiba que Eu sou o seu Deus?" Nós, que somos tão
ímpios, nós, que freqüentemente nos envergonhamos de Deus, nós, que
nas lutas de nossas vidas para nos conformar aos caminhos do pacto de
Deus falhamos tão reiteradamente, temos esta certeza: Deus não se
envergonha de ser chamado o nosso Deus. Que benção! Que maravilha! O
Deus dos céus e da terra, não se envergonha de nós, mas se deleita em
nos chamar de seus filhos.
Seja como for, havia a figura do Antigo Testamento.
Pedro a toma e diz: "Agora isso é o que vocês são no Novo
Testamento." Se você ler a epístola de Pedro, descobrirá que ele
não diz: "A vida de estrangeiro e peregrino consiste em abandonar
o mundo e se afastar dele tanto quanto puder, escondendo-se numa cela de
monastério escura, úmida, lúgubre, onde você possa deitar num banco
de pedra, e bater em si mesmo com um chicote, a fim de alcançar uma
vida santa". Pedro diz que peregrinos e estrangeiros vivem aqui
mesmo no mundo. E assim deve ser, porque o seu chamado é dizer para
todos ouvirem: "Este mundo pertence a Deus. Não importa o que
vocês ímpios digam e façam, este mundo pertence a Deus". Nós
insistimos nisso. E se o mundo zomba dizendo: "Quem? Do que vocês
estão falando? Nós temos o mundo todo para nós e iremos espremê-los
até que vocês não encontrem lugar para a sola do seu pé," o
filho de Deus diz, enquanto é colocado para fora de seu último metro
de solo: "Mas este mundo pertence a Deus. Ele nos colocou dentro
dele. É seu propósito dá-lo a nós. E esse propósito irá ser
cumprido no dia de Jesus Cristo."
Assim, Pedro diz que andar como peregrino e
estrangeiro nesse mundo significa andar de maneira santa, pois "Eu,
o SENHOR, teu Deus, sou santo." Pedro diz: "Você é um
cidadão de um país aqui na terra. Submeta-se àqueles que foram
constituídos autoridade sobre você. Seja o melhor cidadão de toda a
terra porque você se submete, por causa de Deus, à autoridade de seus
governantes." Pedro diz que embora você seja um peregrino e
estrangeiro não é para você ser (ordinariamente) celibatário. Você
deve se casar e constituir família. Mas certifique-se de que em sua
família você viva como cidadão do reino do céu e como membro do
pacto de Deus. E ele dá instrução no capítulo 3 sobre como isso é
feito.
Pedro diz: "Você precisa ter um trabalho;
precisa trabalhar para poder viver. Não seja negligente nem preguiçoso.
Talvez você precise trabalhar até mesmo para um descrente. Isso não
faz diferença nenhuma. Mas quando você trabalhar, honre ao seu patrão
e faça isso por causa de Deus. E se ele o usa de maneira maliciosa e
não é honesto no pagamento, não se junte a um sindicato e diga ‘haverei
de me juntar com outros e hei de pegar aquele canalha!’" Ah, não.
O cristão não diz isso. Ele suporta o mal por causa de Cristo, mesmo
quando seu patrão é cruel para com ele.
Finalmente, como ele vive sua vida como um peregrino
e estrangeiro nesse mundo, ele terá de sofrer. Então Pedro gasta
bastante tempo em sua epístola descrevendo e definindo o que o crente
deve fazer em épocas de sofrimento. O caminho de um peregrino é um
caminho difícil de percorrer e envolve perseguição, pois tal é a
vontade de Deus para ele. Leia isso. Ele está em uma jornada rumo ao
seu destino celestial, a casa de seu Pai. Ele está em uma jornada ao
que John Bunyan em seu livro Pilgrim's Progress (O Progresso
do Peregrino) chama de cidade celestial. Ele não se ajusta ao mundo.
Ele não se encaixa no mundo. É uma pessoa estranha, e aos olhos do
mundo age de uma maneira tão peculiar que este pensa que existe algo de
errado com ele.
Pedro diz: "Vocês são tão diferentes que não
apenas chamam a atenção do mundo por causa de sua conduta peculiar,
mas eles perguntarão a razão: ‘Por que você vive dessa forma?’"
(1 Pedro 3:15). Lembro-me que minha mãe ficou no hospital um bom tempo
antes de morrer. Naqueles dias, os hospitais possuíam grandes
repartições—talvez dez pessoas em cada uma deles. E é claro, as
outras mulheres que estavam juntas de minha mãe em sua repartição
falavam de suas festas nas sextas-feiras à noite; como elas passaram o
fim de semana em todo tipo de busca por prazeres, os últimos shows aos
quais tinham ido, e assim por diante. Finalmente, quando a minha mãe
estava quieta, elas lhe diziam: "Você nunca faz esse tipo de coisa?"
"Não," dizia minha mãe, "Eu nunca as faço. Nunca
fiquei bêbada. Nunca fui a um show em toda a minha vida. Nunca fui ao
cinema." "Oh," diziam elas, "Você nunca se diverte?"
"Sim," dizia minha mãe, "Eu tenho a vida mais feliz de
todas vocês! Divirto-me muito mais do que todas vocês. É engraçado
acordar sábado de manhã sentindo como se um dinamite tivesse explodido
dentro da cabeça? Isso é engraçado? Nós nos alegramos no Dia do
Senhor, onde ouvimos na igreja a palavra de Deus." Elas não
entendiam isso. "Por que você faz isso?" elas diziam. Bem,
nós somos estrangeiros no mundo. Estamos em uma jornada. Estamos
caminhando rumo ao nosso destino eterno. Eis o motivo. Deus nos deixou
penetrar no grande segredo do universo. Nós cremos nele e em sua
palavra. E quando todo esse mundo ímpio for destruído, haverá novos
céus e nova terra que Deus dará ao povo do seu pacto em Jesus Cristo.
Um peregrino e estrangeiro nesse mundo é, portanto,
alguém que reivindica esta criação para Deus usando-a, até ao limite
em que é capaz, para a glória de Deus. Isso significa que ele
reconhece o fato de que a criação conforme é no presente tempo
constituída não é assim tão valiosa. Está debaixo de maldição.
Não vale a pena ficar sendo atrasado em sua jornada. Não vale a pena
ficar acumulando possessões. Um peregrino e estrangeiro não se apega
às coisas do presente tempo. Ele não está interessado em uma casa
maravilhosa, não em primeiro lugar. Se Deus lhe concede, isso é algo a
mais, embora Deus não faça isso freqüentemente aos de seu povo. Eles
são escória do mundo. Mas ele não está interessado nisso. Ele não
está interessado em acumular riquezas para si. Qual é o proveito? Se
ele enche sua mochila e mala com garrafas de vinho e uísque ou com
barras de ouro ou prata, é quase impossível caminhar em sua jornada de
peregrino com tamanha carga. E se constrói para si mesmo, no sentido
espiritual da palavra, uma mansão maravilhosa e muito cara, ele se
esquece que está numa jornada. É muito melhor que ele carregue uma
tenda que possa empacotar de manhã e colocar em suas costas, para
carregar durante o próximo quilômetro de sua jornada pela terra. Mesmo
enquanto desapegado às coisas da presente era, ele diz: "Mas esse
mundo é de Deus. Mas não estou muito interessado nele agora no que diz
respeito a acumular coisas. Não me incomoda ter pouco dele, pois um dia
Deus me dará, e a todo o seu povo, toda a criação glorificada em
Cristo Jesus como minha herança eterna. Isso será glória, pois então
estarei com Cristo."
Além do mais, quando ele tem essas coisas terrenas,
se interessa por elas por uma razão completamente diferente daquela do
ímpio. Ele está interessado nelas por uma única razão, isto é, que
por meio delas e por meio do uso delas, ele possa buscar a causa de
Deus. Isso é a coisa mais importante em sua vida. Isso é o que conta.
Tão logo receba algumas das possessões de Deus dessa criação e
use-as para si, ele estará dizendo: "Isso é meu, para que use da
maneira que me agradar." E Deus estará dizendo: "Não,
cristão peregrino, elas são minhas. E eu dou a você apenas como um
mordomo, a fim de que as use para o meu serviço."
Há uma coisa que o cristão peregrino quer muito, e
isso é fugir de todas as concupiscências e pecados do mundo,
temendo-os com grande temor. Ele não liga a televisão para assistir à
podridão moral dos filmes. Ele não compra revistas repletas de fotos
ímpias. Na verdade, se você visitasse a sua casa, sendo ela apenas uma
habitação temporária, você poderá encontrar um sinal acima da porta
que diz: "Nesta casa Cristo é o Rei." E se você fosse
convidado para entrar, não levaria cinco minutos para descobrir que
pais e filhos da mesma forma se ajoelham em serviço ao Rei Jesus. Você
pode dizer isso pelas canções que são tocadas no CD player ou no
rádio. Você pode dizer isso pelos livros que enchem as suas
prateleiras. Você pode dizer isso pela linguagem que a família usa
dentro de casa, a qual reflete o temor de Deus que permeia toda a vida.
Você dirá: "Cristo governa aqui por meio de sua graça. E nesta
casa Cristo é Rei. Você não encontrará aqui as concupiscências e
prazeres do mundo." A casa de um peregrino é uma ilha de santidade
em um mundo ímpio.
Estamos numa jornada. Ela é difícil. Existe uma
cruz para ser carregada. A jornada é repleta de sofrimentos. O mundo
nos odeia, se colocando em nosso caminho, jogando seu monte de lama e,
finalmente, atacando-nos brutalmente no caminho da vida para nos
afugentar do caminho que, na melhor das hipóteses, é estreito,
difícil e íngreme. Mas no sofrimento há vitória, e na morte há o
paraíso. Nós somos sempre vitoriosos, sempre rumando para o objetivo e
sabendo que a fé é a vitória que vence o mundo.
Fonte: Keeping God’s Covenant, Herman Hanko e David J.
Engelsma, pp. 80-94.
(Para material Reformado
adicional em Português, por favor, clique aqui)