Glutonaria
Prof. Herman Hanko
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
Embora o leitor não cite um texto específico, ele
pergunta: "Por que a igreja parece quase silenciosa em pregar e
ensinar sobre o assunto da glutonaria? Ouvi dizer que no passado a
igreja pregou sobre isso, enquanto hoje nós praticamos a glutonaria!"
A Escritura menciona o pecado da glutonaria mais de
uma vez, embora não freqüentemente. Em Deuteronômio 21:20, os pais de
Israel são ordenados a levar um filho rebelde e obstinado aos anciãos
e dizer a eles: "Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá
ouvidos à nossa voz; é um comilão e um beberrão." Esse
mandamento para levar um filho rebelde aos anciãos ainda está em vigor!
Em Provérbios 23:20-21, Salomão admoesta o povo de Deus: "Não
estejas entre os beberrões de vinho, nem entre os comilões de carne.
Porque o beberrão e o comilão acabarão na pobreza; e a sonolência os
faz vestir-se de trapos." Os judeus consideravam a glutonaria ser
um pecado sério, e por isso acusaram o nosso Senhor de ser "um
homem comilão e beberrão" (Mt. 11:19; Lucas 7:34). Embora a
glutonaria não seja mencionada por nome em Provérbios 23:1-3, a
admoestação é importante: "Quando te assentares a comer com um
governador, atenta bem para o que é posto diante de ti, e se és homem
de grande apetite, põe uma faca à tua garganta. Não cobices as suas
iguarias porque são comidas enganosas." E seria bom ler também os
versículos 4-8.
O leitor assume em sua pergunta que a glutonaria é
um pecado, mas pergunta especificamente o porquê os ministros nunca
pregam sobre ela. Eu não sei a resposta; pode haver muitas respostas: o
próprio ministro come demais; quando um ministro condena a glutonaria
desde o púlpito, as pessoas recebem tal admoestação com hilaridade (como
aconteceu uma vez comigo); muitos na congregação são glutões e o
ministro não quer ofendê-los; a glutonaria é geralmente considerada
como um pecado insignificante, não digno da nossa atenção.
Uma razão, contudo, pela qual os ministros raramente
pregam, se é que pregam, sobre esse pecado pode ser que a glutonaria é
difícil de definir. Suspeito que um homem magro que coma tudo o que
deseja e nunca engorde sequer uma grama, definirá glutonaria um tanto
diferente da pessoa que come de forma reduzida e, todavia, engorda com
tudo o que come.
Um homem que come com voracidade e nunca aumenta de
peso pode ser culpado do pecado de glutonaria, enquanto uma pessoa obesa
pode não ser. Nem todos os obesos são glutões, e nem todos os magros
estão livres desse pecado. Os presbíteros na igreja não descobrem
quem são os glutões entrando na casa de cada um e pesando os membros
da família numa balança que carregam consigo.
Um problema adicional de nenhuma significância
pequena é: Quanto uma pessoa pode comer antes de cair no pecado de
glutonaria? Ou, na mesma linha: Quais comidas ele deve comer e quais
deve evitar, para se guardar do pecado de glutonaria?
Há poucos glutões nos países de terceiro mundo
onde o problema não é comer muito, mas manter-se vivo. Nós que
vivemos em fartura devemos considerar que o pecado pertence
especialmente aos nossos tempos e em nossas circunstâncias.
Contudo, eu creio sinceramente que os ministros
conscientes que pretendem pregar todo o conselho de Deus, e que buscam
aplicar essa Palavra de Deus à congregação, pregam sobre glutonaria,
mas fazem isso sem mencionar especificamente o pecado. Como?
A quantidade do que como e bebo e o tipo de comida e
bebida é tudo questões de liberdade cristã. Elas pertencem àquela
área onde nenhuma lei deveria ser feita, onde o cristão, ungido por
Cristo para ser rei na casa de Deus, governa sua vida pelos princípios
da Escritura, e onde sua própria consciência é o seu guia—uma
consciência cativa pela Palavra de Deus. E assim, um ministro
consciente prega os princípios que fundamentam esse pecado. Quais são
alguns deles?
Não devemos ficar preocupados sobre o que
deveríamos comer e beber, pois Deus, que cuida dos pardais, prometeu
tomar conta de nós (Mt. 6:25-34). Muita glutonaria começa por falhar
em prestar atenção a essas palavras de Deus. Com geladeiras cheias,
nós nos preocupamos constantemente.
Não devemos ser ascetas que, nos interesses de
permanecer magro, evitamos os dons de Deus. Devemos recebê-los com
gratidão, santificá-los com a Palavra de Deus e oração, e
desfrutá-los como dons bondosos de Deus (I Tm. 4:1-5).
Nunca devemos pensar em alimento e comida como fins
em si mesmos, a serem desfrutados por causa deles, mas devemos lembrar
que nosso chamado é buscar o reino de Deus e a Sua justiça (Mt. 6:33).
Isto é, comida e bebida nos são dados por nosso Pai do céu, para que
possamos ter a força para continuar nossa jornada de peregrinos rumo ao
céu, e, enquanto estamos ainda sobre a Terra, fazermos a obra do reino
nos dada como tarefas por Cristo.
Se nos entregamos às comidas e bebidas dos tipos
mais caros e não ajudamos aos pobres, a comida que comemos não somente
nos engordará, mas se tornará em amargura dentro de nós sob a
maldição de Deus. Deus se preocupa muito com os pobres!
Tão importante é o reino da justiça de Deus que
suas obrigações excedem comida e bebida. Se necessário, como é para
muitas pessoas, escolher entre a instrução cristã e a comida, entre a
pregação e batatas, entre missões e pêssegos, a causa do reino de
Deus deve vir em primeiro lugar.
Quando, em nossa fartura, comemos guloseimas e
comidas exóticas que não são boas para nós, tornamo-nos glutões.
Quando comemos qualquer comida que prejudique a nossa saúde, pecamos.
Isso não significa que devemos ouvir aos médicos o tempo todo ou usar
uma pequena balança na nossa mesa, ou contar as calorias constantemente,
mas significa que a regra bíblica, "seja a vossa moderação
notória a todos os homens. Perto está o Senhor" (Fp. 4:5) é uma
palavra muito necessária em nossos dias. Ao comer e beber, bem como em
todas as outras coisas, façamos tudo para a glória de Deus (I Co.
10:31).
Fonte: Gluttony
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